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TELMA MILHO

Clinical Lead na Enhanced Fertility

Patient Advocate na IVF Media

Enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica, Hospital Lusíadas

Licenciatura em Enfermagem, 2012

O que a levou a escolher a ESS/IPS para a sua formação superior?

Quando chegou o momento de escolher onde prosseguir os meus estudos, a ESS/IPS afirmava-se já como uma escola de referência no ensino da Enfermagem. Foi precisamente esse prestígio que ditou a minha escolha. O tempo encarregou-se de a confirmar: anos mais tarde, já a exercer além-fronteiras, compreendi verdadeiramente o quão diferenciadora fora essa formação.

Que memórias guarda dos seus tempos na Escola?

Guardo memórias abundantes, umas luminosas, outras mais exigentes, todas elas formadoras. A que mais profundamente me marcou remonta ao segundo ano da licenciatura, durante o estágio no serviço de medicina. Decidira, de comum acordo com a enfermeira orientadora, não preparar nem administrar um fármaco que até então desconhecia, ficando acordado que o faria no dia seguinte, munida já de toda a informação que julgava necessária. Sucede que não informara essa decisão ao Professor Orientador. Meço 1,57 m e, no momento da repreensão, ele afigurava-se-me com três metros de altura! Sendo profundamente perfeccionista, foi-me difícil aceitar a sensação de ter falhado naquilo que acreditava, com sinceridade, estar a fazer bem. Essa circunstância, porém, fez-me crescer e creio que o Professor testemunhou esse crescimento, pois no último ano distinguia-me com elogios pela postura e pela evolução demonstradas, tendo-se tornado, afinal, um dos meus professores prediletos.

De que forma a formação recebida na ESS/IPS o/a preparou para os desafios da vida profissional?

De forma absolutamente decisiva. Concluí a licenciatura munida de sólidos fundamentos teóricos, mas igualmente de uma preparação prática cuja raridade só verdadeiramente reconheci quando emigrei: no Reino Unido, essa componente não integra do mesmo modo a formação de base, recaindo sobre cada hospital a responsabilidade de formar os seus enfermeiros. Foram esses alicerces que me permitiram, enquanto recém-licenciada em país estrangeiro, não apenas corresponder às exigências, mas distinguir-me.

Qual foi o seu primeiro contacto com o mercado de trabalho após concluir o curso?

Terminei o curso em 2012, quando o país atravessava uma conjuntura económica adversa, e tomei a decisão de emigrar. Em outubro desse ano iniciei o processo de recrutamento para o University Hospital of Southampton e, em janeiro de 2013, exercia já funções numa Acute Medical Unit — unidade análoga a um Serviço de Observação de curta duração. Se conheci o medo e a ansiedade nos primeiros meses? Naturalmente.
Recordo com nitidez a apreensão perante o turno seguinte, quão crítico seria e se estaria à altura do desafio. Mas os alicerces que a ESS/IPS me legou revelaram-se mais do que suficientes e permitiram- me, inclusivamente, distinguir-me: apesar de recém-licenciada, em menos de seis meses era responsável de turno (chefe de equipa), bem como responsável pela integração e orientação de novos colegas.

Que funções desempenha atualmente e em que instituição/organização trabalha?

Construí um percurso que hoje me permite gerir o meu próprio horário, repartido por quatro funções. Na Enhanced Fertility (empresa de health tech e inteligência artificial aplicada aos cuidados de fertilidade) desempenho funções de Clinical Lead & Quality Representative. Na IVF Media sou Patient Advocate: percorro a Europa visitando clínicas de fertilidade e partilho depois, nas redes sociais, uma apreciação tão honesta quanto possível, de modo a que quem procura estes serviços possa conhecer melhor cada instituição. Na SEDATE UK colaboro na gestão da empresa e dos cursos de sedação, assegurando que os estudantes dispõem de toda a informação necessária.
Mantenho-me, por fim, ligada à Lusíadas Saúde, onde sou team leader e enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica, sendo também vista como um elemento de referência nos cuidados prestados a casais em situações complexas: por possuir uma especialização avançada em Psicologia da Gravidez e Parentalidade, consigo prestar um acompanhamento mais profundo, personalizado e holístico aos casais que atravessam perdas gestacionais ou outras circunstâncias de particular delicadeza. Tenho também a oportunidade de marcar presença, como enfermeira de emergência pré-hospitalar, em eventos de grande escala, como o MEO Kalorama e o Rock in Rio. E a Lusíadas Saúde permite-me ainda conciliar um lado completamente diferente da minha vida: o de ser vocalista dos Flu Fighters, a banda oficial do grupo.

Como tem evoluído o seu percurso profissional desde que terminou a formação na ESS/IPS?

Permaneci na Acute Medical Unit durante um ano e apreciei cada momento, sobretudo perante doentes complexos, quando se impunha a ativação da Equipa de Resposta Rápida. O receio e a ansiedade foram cedendo lugar a uma enfermeira confiante das suas competências, a tal ponto que o próprio responsável daquela equipa sugeriu a minha transferência para os cuidados intensivos e eventual integração da Equipa de Resposta Rápida. Encontrei-me então dividida entre a UCI e a área que desde sempre me apaixonara, a saúde materna e obstétrica. Foi em Londres que surgiu a oportunidade perfeita: a Close Observation Bay do Labour Ward do UCLH, unidade de cuidados
intermédios e intensivos de saúde materna, que reunia precisamente as duas áreas que mais me desafiavam. Ali permaneci entre 2014 e 2016, período durante o qual concluí a especialidade em Saúde Materna e Obstétrica na City University of London, realizando a totalidade dos estágios no Royal London Hospital. Exerci posteriormente como Midwife (EESMO) no Queen Elizabeth Hospital (Lewisham and Greenwich NHS Trust), considerado, em 2016, a melhor maternidade do país, onde fui distinguida como Star of
the Month no domínio do Fetal Wellbeing e considerada pelas colegas mais novas como um elemento de referência pelo percurso até então já feito. Em 2018 regressei a Portugal, para a Lusíadas Saúde, e, mais recentemente, abracei o desafio da health tech, na Enhanced Fertility. Pelo caminho, procurei incessantemente mais conhecimento: à licenciatura e à especialidade somaram-se a especialização avançada em Psicologia da Gravidez e Parentalidade e uma pós-graduação em Gestão em Saúde.

Quais foram os principais desafios que encontrou no início da sua carreira?

Partir sozinha do meu país, aos 22 anos; adaptar-me a uma cultura e a um sistema de saúde distintos; e gerir o medo e a ansiedade próprios de uma recém-licenciada num contexto de grande exigência. Cada turno constituía uma incógnita. Mas o receio foi-se dissipando, dando lugar a uma profissional segura das suas competências – algo que só foi possível devido aos alicerces da ESS/IPS.

Que conquistas profissionais considera mais importantes até ao momento?

A vida faz-se de altos e baixos, mas somei conquistas de que, com toda a franqueza, muito me orgulho: a coragem de partir sozinha em busca de mais – não apenas no plano profissional, mas também da oportunidade ímpar de conhecer outra cultura -, o pronto reconhecimento das minhas competências, a especialidade obtida noutro país, as distinções que fui recebendo. A conquista de que mais me orgulho, porém, é a mais recente. É cómodo permanecermos num vínculo estável, com contrato, boas condições e anos de casa – instalamo-nos, quase sem dar conta, numa zona de conforto.
Como em tantos momentos do meu percurso, senti que precisava de mais: deixei a prestação de cuidados a tempo inteiro e abracei o desafio de trabalhar numa empresa de health tech e inteligência artificial dedicada aos cuidados de fertilidade. Foi uma mudança abrupta, sem dúvida, mas conduziu-me a desafios onde hoje me encontro realizada e
orgulhosa e onde nunca imaginei estar.

Que influência teve a ESS/IPS na construção da sua identidade profissional?

Uma influência profunda. A ESS/IPS ensinou-me que a segurança do doente se sobrepõe a tudo, que o conhecimento é o fundamento da confiança e que o rigor não admite transigências. Foi ali que se forjou a profissional exigente e perfeccionista que sou: alguém que não administra o que desconhece, que estuda antes de agir, que assume, por inteiro, a responsabilidade das suas decisões e que, quando chamada a gerir equipas, não se limita a chefiar – lidera. Porque ser chefe não basta, é preciso saber
liderar.

Sente que os valores transmitidos pela Escola continuam presentes na sua prática profissional?

Indubitavelmente. A responsabilidade, o rigor, a humanização dos cuidados e a aprendizagem contínua acompanham-me quotidianamente; seja junto de casais a vivenciar os seus momentos mais felizes, ou outros em momentos de perda, na emergência pré-hospitalar ou na avaliação da qualidade dos cuidados numa empresa tecnológica. Mudam os contextos; os valores permanecem.

A relação com docentes, colegas ou orientadores teve impacto no seu percurso posterior?

Um impacto imenso. O episódio que evoquei, é disso o melhor exemplo: uma repreensão difícil de digerir no momento converteu-se num dos maiores impulsos de crescimento de todo o meu percurso. A exigência dos docentes, temperada pela proximidade e pelo acompanhamento que dispensavam, moldou a profissional que hoje sou e só tenho a agradecer por isso.

Olhando para trás, que aspetos da formação na ESS/IPS considera terem sido mais diferenciadores?

Sem hesitação, a robusta componente prática aliada aos fundamentos teóricos. Ao chegar ao Reino Unido, percebi que tal preparação não constituía um dado adquirido, ali, cabe a cada hospital ministrá-la aos seus enfermeiros. Chegar já munida desses alicerces permitiu-me destacar-me desde o primeiro momento. A par disso, a exigência e o sentido de responsabilidade que a Escola incute nos seus estudantes – sem nunca esquecer o cuidado holístico, imbuído de inteligência emocional, que a nossa profissão exige.

Que significado tem para si ser diplomada pela ESS/IPS?

Um imenso orgulho. Onde quer que tenha exercido – em Portugal ou no Reino Unido, à cabeceira do doente ou numa empresa tecnológica – levei sempre comigo a formação e os valores da ESS/IPS; foram eles que me permitiram distinguir-me. Para mim, mantém-se uma referência no ensino da Enfermagem. Arrisco-me mesmo a dizer que é, atualmente, a melhor instituição de ensino na área.

Numa frase, como descreveria a importância da ESS/IPS no seu percurso?

A ESS/IPS deu-me raízes e asas: os alicerces sólidos que me sustentam e a confiança para voar cada vez mais longe.

Que atitudes considera essenciais para construir uma carreira sólida na área da saúde?

Coragem para abandonar a zona de conforto, humildade para reconhecer o que ainda ignoramos, curiosidade para jamais deixar de aprender e resiliência para converter as adversidades em crescimento. E, acima de tudo, nunca perder de vista que, no centro de tudo, está sempre a pessoa de quem cuidamos, sempre com uma visão holística.

Como vê o papel dos profissionais de saúde na sociedade atual?

Um papel cada vez mais vasto. Para além da prestação direta de cuidados, somos educadores, defensores dos doentes, gestores e, cada vez mais, parceiros da inovação.
Numa era de excesso de informação (nem sempre fidedigna), cabe-nos também ser tradutores: ajudar as pessoas a compreender, a decidir de forma informada e a navegar sistemas de saúde cada vez mais complexos. Sinto-o diariamente, quer seja junto de quem procura cuidados de fertilidade, junto de casais a passar pelo nascimento do seu primeiro filho e, até mesmo, junto dos casais que acompanho em momentos de perda: tantas vezes, mais do que o gesto técnico, o que o doente precisa é de alguém que o escute, o informe e o defenda.
A saúde atravessa, ao mesmo tempo, uma profunda transformação: a tecnologia e a inteligência artificial vieram para ficar, e os profissionais de saúde não podem ficar à margem. Devemos estar na primeira linha dessa mudança, precisamente para assegurar que a transformação preserva, no seu centro, aquilo que nenhuma máquina substitui: a humanização dos cuidados e a segurança dos nossos doentes.

Que competências considera hoje indispensáveis para os profissionais da sua área?

Para além das competências técnicas e científicas (alicerce de tudo o resto), destaco, em primeiro lugar, a inteligência emocional. Cuidamos de pessoas nos momentos mais vulneráveis das suas vidas, e é cada vez mais evidente que a dimensão psicológica do cuidado não é um complemento: é parte integrante dele. A minha especialização avançada em Psicologia da Gravidez e Parentalidade ensinou-me que saber estar perante o sofrimento – escutar sem pressa, acolher o silêncio, encontrar as palavras certas (ou saber não as dizer) – exige tanto estudo e treino como qualquer competência técnica. Num mundo onde a ansiedade, a perda e a solidão atravessam cada vez mais os percursos de quem procura cuidados de saúde, o apoio psicológico e emocional deixou de ser desejável para se tornar indispensável.
A par desta, a comunicação – com o doente, com a família, com a equipa -, a adaptabilidade e, nos dias que correm, a literacia digital. O futuro da saúde passa inevitavelmente pela tecnologia, e os profissionais que souberem conjugar o saber clínico e estas novas ferramentas com uma profunda humanidade farão, verdadeiramente, a diferença.

 

NIC ESS/IPS, julho de 2026

Conteúdo atualizado em 06/07/2026 17:18
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